A s emissões de gases do efeito estufa devem superar a meta do Acordo de Paris em 30% segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). No final de 2015 aconteceu na cidade de Paris, França, a 21ª Primeira Conferência das Partes (COP 21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, sigla em inglês). A COP 21 também ficou conhecida como o “Acordo de Paris” e seu objetivo foi o de manter o aquecimento global abaixo dos 2º C acima dos níveis pré-industriais. No Brasil, a emissão de gases do efeito estufa (GEE) aumentou cerca de 9% em 2016, segundo dados do Observatório do Clima. Nesse cenário, o agronegócio foi o principal responsável por essas emissões respondendo por 74% do total emitido pelo Brasil de GEEs. O desmatamento da Amazônia contribuiu com 27% das emissões de gases estufa. Esses dados evidenciam o contexto global da crise ambiental que a sociedade enfrenta e que está intimamente ligada aos valores socioculturais, modos de vida e de produção denunciados de modo sistemático desde 1962, com a publicação do livro “Primavera silenciosa” escrito por Rachel Carson, sendo considerado um marco do movimento ambientalista. Assim a Educação emerge como um dos caminhos potenciais para a transformação da realidade atual. Segundo Paulo Freire “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, uma vez que a tomada de consciência é mediada pelo diálogo com o outro. E sem dúvida a Educação Ambiental (EA) tem um papel preponderante no contexto socioambiental na construção de caminhos de transição para sociedades sustentáveis no tempo.

A Educação Ambiental tal como a conhecemos hoje é resultado de uma construção permanente e possui alguns marcos importantes na sua constituição. Dessa forma, um marco histórico importante foi a Conferência Intergovernamental de Educação Ambiental, em 1977, ocorrida em Tbilisi e que lançou as primeiras referencias para as atividades de EA. No Brasil, o surgimento da EA está muito atrelado aos movimentos sociais e políticos, em especial ao movimento ambientalista que clama não somente pela conservação ambiental, como também reivindica igualdade social e democracia. A Constituição Federal de 1988 também lhe faz referência no seu artigo 225, o qual determina ao “Poder Público a promoção da EA em todos os níveis de ensino”. Nessa construção a ocorrência da Cúpula da Terra no Rio de Janeiro em 1992, também conhecida como ECO-92, trouxe dois resultados importantes: (1) a Agenda 21: que é um conjunto de princípios, ações e metas para o desenvolvimento socioambiental neste século e; (2) o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis: documento em permanente construção que traz cerca de 16 princípios para a educação ambiental em prol de sociedades sustentáveis e responsabilidade global.

Há dentro da EA diferentes tendências, uma delas é a Educação Ambiental crítica, emancipatória e popular que defende uma mudança de paradigmas e mudanças em níveis estruturais da sociedade. Essa corrente da EA identifica diferentes grupos sociais e lhes atribui diferentes níveis de responsabilidade ambiental, bem como grau de exposição à riscos. Há também uma tendência mais conservadora e reformista na qual o ser humano é deflagrador e vítima da crise ambiental, essa visão pode ser sintetizada pela frase “o homem está acabando com o planeta”. Nessa linha de pensamento, o grande perigo reside em não diferenciar grupos sociais e seus diferentes graus de responsabilidade ambiental, além de colocar a problemática ambiental apenas como decorrente da falta de informações e conhecimentos ecológicos, como se isso por si só fosse catalizador para gerar atitudes e comportamentos ambientalmente adequados.

Diante de uma realidade complexa e multidimensional é importante que os conhecimentos conversem entre si. Embora nosso sistema de educação formal nos ensine a separar as coisas, a separar o conhecimento em disciplinas, pesquisadores como o antropólogo francês Edgard Morin irão criticar esse modelo e sugerir que a reforma do pensamento seja a de religar para enfrentar os desafios que são globais e multidimensionais. Assim a transversalidade é um conceito que permeia a Educação Ambiental, uma vez que exprime a possibilidade de se instituir na prática educativa, uma analogia entre aprender conhecimentos teóricos que foram sistematizados e as questões da vida real. O professor Nílson Machado da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, ilustra que as pessoas se interessam pela água, pelos rios, pela energia, … Todavia, a água, por exemplo, não é uma propriedade intelectual da biologia, geografia ou química, embora os estudos científicos dessas áreas auxiliem na compreensão de sua natureza. Nisso reside a transversalidade da EA que é uma contraposição a um jeito de pensar fragmentado, oferecendo caminhos e práticas que ampliem a percepção da complexidade dos sistemas vivos de maneira holística, evitando um olhar reducionista para a realidade. Nesse contexto, o tema das Mudanças Climáticas Globais é exemplo de um assunto que tem impactos diretos sobre a realidade da sociedade global, uma vez que provoca o aumento no nível da água dos oceanos comprometendo a segurança de comunidades litorâneas, bem como o aumento na frequência de fenômenos como furacões, etc. Esse tema requer um diálogo de entre as ciências naturais e sociais para dar suporte à sua compreensão, dada a multiplicidade das suas causas.

Dada a crise ambiental atual que é resultado de um processo histórico de desconexão do ser humano com a natureza e desenvolvimento de modelos mentais que sustentam modos de produção que impactam negativamente o meio ambiente, principalmente desde a Revolução Industrial, a educação permite a abertura de uma fresta para a construção do tão sonhado desenvolvimento sustentável. Assim, a EA contempla três dimensões: (1) conhecimentos, (2) valores éticos e estéticos e (3) participação e cidadania, ou seja, envolve as dimensões do pensar, do sentir e do agir, respectivamente, e que são experimentadas por todos os seres humanos. A EA oferece caminhos e possibilidades para a formação de uma imagem minimamente comum para a construção de sociedades sustentáveis.  Para citar o “ecosocioeconomista” Ignacy Sachs:

“As novas gerações estão condenadas a inventar caminhos novos”

Isso é desafiador e ao mesmo tempo traz uma esperança no espirito humano capaz de criar e modificar sua própria realidade, ainda que exista incerteza sobre o fato desses caminhos serem bem-sucedidos ou não.  Em razão disso, é importante ter diretrizes que orientem processos educativos que sensibilizem, informem e ampliem a percepção sobre as relações de interdependência entre sociedade e ambiente.

Fontes de inspiração

Referências

LEME, Patricia S. Curso de Licenciatura – Univesp – Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Meio ambiente e Sustentabilidade – (BES-001). Disponível em: <https://goo.gl/2eAxwH>. Acesso em: 20 jun. 2018.

Regina Freitas

Bióloga e educadora. Acredito ser possível melhorar a qualidade da relação das pessoas consigo mesmas e com os recursos naturais. Assim, compartilho da ética da Permacultura que envolve cuidar das pessoas, cuidar da terra e a partilha justa dos recursos. Sigo desenvolvendo atividades para tornar esse propósito uma realidade.

http://reginafreitas.com.br/

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